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20 de outubro de 2016

Nunca mais o despotismo? Por Gervásio Lima

"Os resultados das eleições em diversas cidades chegam a ser bizarros e até mesmo uma espécie de comprovação de uma relação social sadomasoquista"

“Nunca mais o despotismo, regerá nossas ações. Com tiranos não combinam, brasileiros corações”. Este verso é uma das estrofes do Hino da Bahia, que faz alusão ao 2 de julho de 1823, data maior do Estado, quando após as lutas que perduraram desde o ano de 1821, libertou o Brasil do domínio português. Ele descreve claramente a valentia dos heróis que lutaram de forma heroica pela independência da Bahia e do Brasil.

Baianos de várias partes se dirigiram até a cidade de Cachoeira, no Recôncavo, e se apresentaram como voluntários no Exército, que chegou a reunir 13 mil combatentes, entre os quais a famosa Maria Quitéria. De lá, as tropas marcharam para fazer o cerco a Salvador, que também teve dias de guerra, especialmente na região de Pirajá.  A Independência do Brasil foi declarada por Dom Pedro I no dia 7 de setembro de 1822, no entanto, o exército português continuava resistindo e, por este motivo, dominava o território baiano, que declarou independência somente um ano depois, em 2 de Julho de 1823.

O Hino da Bahia, antes chamado de Hino ao Dois de Julho, por muito tempo não foi oficialmente o hino do estado, tendo esse papel sido comumente desempenhado pelo Hino ao Senhor do Bonfim, por imposição de governantes que se identificavam com o significado do termo ‘despotismo’. Apenas em 20 de abril de 2010 o então governador Jaques Wagner sancionou a lei estadual que o tornou o hino oficial do Estado.

Mas porque trazer a história do hino da Bahia neste momento, quando não se comemora ou se vive um período digno de nostalgia cívica? Questionamento didático para aqueles que só trazem à memória determinada data quando esta faz parte do seu  calendário de feriados. O descanso e o lazer são o que importa. Os acontecimentos históricos, o que eles significam, ou significaram, e suas contribuições para o momento atual e para o futuro são ignorados ou passados despercebidos.

Ao contrário do que se refere a estrofe citada no primeiro parágrafo, mais que atuais os déspotas insistem em permanecer vivos, muito vivos. E o pior, com a complacência dos que já foram vítimas dos seus comportamentos. Só Freud explica.


O Brasil passou no início do mês de outubro por mais um processo eleitoral que elegeu prefeitos e vereadores para seus municípios. Os resultados das eleições em diversas cidades chegam a ser bizarros e até mesmo uma espécie de comprovação de uma relação social sadomasoquista, quando o eleitor demonstrou prazer em votar naquele ou naquela sádica que lhe fez sofrer, ao impedir, entre outras coisas, que tivesse acesso a serviços essenciais à sua sobrevivência como cidadão. Infelizmente, muitas populações conviverão por mais quatro anos, a partir do mês de janeiro, com seus “déspotas preferidos”, aqueles que empregam autoridade tirânica para dominá-las.

O romancista castelhano, Miguel de Cervantes Saavedra, autor do clássico da literatura ocidental, Dom Quixote, define história como “êmula do tempo, repositório dos fatos, testemunha do passado, exemplo do presente, advertência do futuro”. Ou seja, que a história está presente em todos os momentos, no presente, no passado e no futuro, e, como repositórios dos fatos sempre os deixam vivos ao testemunhar o passado, orientando nas ações do presente e advertindo para o futuro, pois os rumos tomados no presente darão frutos no futuro.

Por Gervásio Lima
Jornalista e historiador

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